Cartas do Japão

A notícia que o oráculo de Omaha e herói da classe investidora, Warren Buffett, vendeu uma elevada percentagem das suas acções americanas pouco antes da correção e que está agora a aumentar a sua presença como accionista de corretoras japonesas (diz que admira a forma como são geridas) fez-me olhar com olhos de ver para o Japão.

Podemos partir do princípio que Buffett está a apostar no Japão porque espera que:

  • a economia japonesa se mantenha estável ou cresça
  • apesar de ter feito hedging não creio que estaria no Japão se houvesse risco cambial elevado

As notícias que saem do Japão ultimamente ajudam a iluminar a reviravolta que lentamente se está a operar na economia japonesa desde o Abenomics, tentando dar a volta às Décadas Perdidas. O Banco do Japão está numa missão de normalização da política monetária depois de décadas de stagflation, ajudado pela recuperação da economia japonesa em 2024 e o subsequente crescimento da inflação. Amanhã, 19, a expectativa é que o BdJ manterá a taxa de juro nos 0,5% apesar de ser esperar aumentos durante o resto do ano.

Há questões globais que poderão coibir o BdJ de aumentar o juro amanhã e durante o resto do ano:

  • a OCDE alerta que a guerra comercial, hobby do presidente dos EUA, pode causar um desaceleramento do crescimento económico
  • O Banco Central Europeu, na pessoa de Lagarde, alertou que a situação internacional está muito volátil o que dificulta o trabalho dos bancos centrais

E a novela das tarifas alfandegárias ainda não chegou ao Japão mas:

  • o Trump já lançou alguns ataques aos acordos de defesa EUA-JP; ja indicou que o Japão anda a desvalorizar o Yen para “se aproveitar” dos EUA (precisamente o contrário mas enfim, já se sabe o que a casa gasta em termos de as decisões econômicas não terem correlação com a realidade)
  • se os EUA aplicarem taxas alfandegarias ao Japao o efeito no Yen podera ser como o do peso Mexicano e do dolar Canadiano:
    • a medida que os produtos se tornam mais caros nos EUA devido  às taxas, as moedas dos países de origem desvalorizam, minimizando o impacto no consumidor americano
    • por outro lado, as tarifas sobre a UE não tiveram esse efeito dada a fuga de capitais dos EUA para os mercados europeus – uma maior diversificação de portfólios e a promessa de rearmamento numa fuga para estabilidade do Euro

Notícias que levam a pensar que o aumento das taxas de juro no Japão será inevitável:

  • o maior sindicato de trabalhadores do Japao obteve pelo segundo ano consecutivo um aumento médio dos salários superior a 5%, uma ajuda para crescer a inflação
  • a inflação nos produtos alimentares tem vindo a aumentar e constrangimentos na cadeia de distribuição tem causado uma menor oferta de arroz que levou o governo a vender parte da reserva estratégica (de arroz! há quem tenha de petróleo mas prioridades são prioridades)

Ha alguma exuberância tambem na bolsa de Tóquio o que só ajuda o Buffett a obter retorno destes investimentos tão atempados:

  • amanha a JX Advanced Metals Corp. vai ser listada na bolsa no que será o maior IPO desde o Softbank em 2008, aumentando o apetite para que mais empresas japonesas seguirem o mesmo caminho estimulando o sistema financeiro

E há ainda o efeito Trump na NATO e o facto de não se poder contar com compromissos de defesa serem honrados: o Japão fez uma aliança de segurança com a Europa em Novembro dada a ameaça da China, Coreia do Norte e Rússia, e faz parte do consórcio que está a desenvolver os novos caças Typhoon, com as Mitsubishi Heavy Industries. Mitsubishi Heavy Industries cujas ações duplicaram em menos de um ano.



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