Bola de Cristal…

…era o que era preciso para adivinhar o que se vai passar com o mercado de ações americano. A queda recente para os níveis das eleições presidenciais é para continuar e passamos de uma correção a um bear market (-20%) à antiga?

(autoria do Ben Carson do awealthofcommonsense.com)

(atualizando a info acima, o S&P500 caiu -6,89% o que significa que dia 13 de Março poderá ter sido o fundo do poço e agora vai recuperar?)

A partida, o que levou à pequena derrocada foi:

  • INCERTEZA: o anúncio de políticas de guerra comercial de forma caótica pelo Presidente Trump com voltas e reviravoltas e sem uma lógica aparente (e provavelmente sem lógica tout court).

(divertida ilustração da loucura tarifária num só dia por Justin Wolfers)

  • EXPECTATIVAS GORADAS: as valorizações em Bolsa foram praticamente usadas por Trump como um indicador do sucesso dos seu primeiro mandato. Desta vez, quando lhe perguntaram se o compasso de espera para aplicar as taxas alfandegárias anunciadas era por causa da bolsa em queda, respondeu “eu nem olho para o mercado de valores” e reiterou que as taxas alfandegárias vão fazer a riqueza dos EUA (!)
  • INVESTIMENTO MENOR QUE O ESPERADO: o modelo de inteligência artificial open-source DeepSeek anunciado na China com resultados estupendos (auto-reportados) em termos custo/benefício veio pôr em causa os milhares de milhões de investimento que as empresas tecnológicas tinham vindo a anunciar para desenvolver serviços de inteligência artificial. Será que afinal não vão ser precisos tantos processadores da NVIDIA e afins para conseguir treinar os grandes modelos de linguagem? Será que o open source põe em causa os modelos proprietários?

E qual é a situação agora e que se pode adivinhar no futuro? Coisas que acalmaram e melhoraram:

  • Desde que o Trump deixou de anunciar taxas alfandegárias 3 vezes ao dia, o mercado tem andado em zig zag (não é um bear market, nem um bull market, é um kangaroo market). Os mercados odeiam instabilidade!
  • Os adultos tomaram conta da situação e há agora um empregado do governo, um representante do comércio chamado Greer, que está a seguir os procedimentos normais quando se pretende impor taxas alfandegárias. De qualquer maneira, é discípulo do Lighthizer que teve o mesmo cargo e que diz que “protecionista” não é um insulto, o que significa que vai haver taxas alfandegárias na mesma mas pelo menos serão feitas de forma organizada.
  • As preocupações com o investimento em processadores para inteligência artificial desvaneceram mas ainda não convenceram (as magnificent 7 ainda não recuperaram do choque). Rapidamente toda a classe de investidores em Silicon Valley invocaram o Paradoxo de Jevons: quando uma nova tecnologia usa um recurso mais eficientemente, o consumo desse recurso aumenta em vez de diminuir porque a produção mais eficiente possibilitada pela nova tecnologia diminui preços e aumenta a procura levando ao aumento da oferta.
  • A Federal Reserve ontem manteve as taxas de juro – e estão previstas, ou pelo menos antecipam-se – 2 a 3 cortes este ano. Isto significa crédito mais barato, mais investimento, mais crescimento, mais resultados e cotações de bolsa mais altas por consequência.

E o que pode correr mal? Que riscos se avizinham?

  • O dia 2 de Abril foi descrito por Trump como o Dia da Libertação. Nesse dia vão ser anunciadas (ou implementadas? Quem sabe?) uma série de taxas alfandegárias sobre países que se “têm portado mal”. Não é só um prenúncio de caos – não sei se já disse mas os mercados odeiam instabilidade. Está prevista uma tarifa por país em vez de ser por produto – agora não temos tempo, mas isto não faz sentido nenhum e a Organização Mundial do Comércio não vai achar graça nenhuma. Talvez num futuro post me adentre.
  • Não é só o caos – as taxas alfandegárias em si têm impacto econômico, claro, e impacto nas carteiras dos americanos mas também nas empresas que importam componentes e materiais. E sem saber quem vai ser atingido não faz sentido comprar acções… por exemplo, as farmacêuticas americanas estarão em maus lençóis se as taxas alfandegárias sobre a Irlanda forem proibitivas de importar os seus próprios produtos fabricados… na Irlanda.
  • A instabilidade e incerteza tem levado as empresas (grandes e pequenas) e consumidores a prever um menor investimento/consumo no futuro próximo. Uma desaceleração da economia reflete-se nos resultados das empresas. Se os resultados das empresas cotadas se deteriorarem, podemos caminhar para um bear market.
  • O Fed manteve as taxas de juro mas avisou que o prognóstico de crescimento do país se deteriorou e que a inflação teima. Ou seja, um cheirinho de stagflation. O chefe do Fed, Powell, é sempre comedido e disse que o efeito das taxas alfandegárias na inflação será transitório. Provavelmente terá razão. Mas também disse que a inflação resultante da quebra das cadeias de distribuição durante a pandemia também seria transitória…
  • E como se espera tudo do homem: e se o Trump despede o Jay Powell da Federal Reserve? Hoje já quebrou o silêncio e já disse que o Fed deveria cortar as taxas de juro. Supostamente o Presidente não pode tocar na Federal Reserve (apesar de nomear o seu governador) mas como ultimamente o respeito pela lei e procedimentos tem sido nulos… o impacto seria mais canguru, penso eu. Por um lado, o mercado não gosta de caos, por outro sabe que quem fosse para o Fed escolhido pelo Trump cortaria a taxa de juros! Mas o impacto na credibilidade e estabilidade financeira seria um golpe mortal.

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