Umas ideias arriscadas vindas da Trumpolândia (tanto reais, como potenciais) 

Cobrar aos navios chineses para atracar

Naquela lógica própria ao Trump em que primeiro se destrói para reconstruir de maneira mais ao seu gosto, foi proposta uma nova medida para competir com a construção naval chinesa.

Os factos:

  • A China produz 1.000 navios por ano enquanto os EUA produzem 10. Para relançar a construção naval americana, a administração Trump pretende cobrar entre 1 a 3.5 milhões de dólares por cada navio chines que pretenda atracar. 
  • A medida afetaria 83% das visitas de navios porta-contentores aos EUA com base nos dados do ano passado, dois terços das escalas de transportadores de veículos e quase um terço dos navios-tanque de crude.

(imagem da Bloomberg)

Numa reunião para ouvir as opiniões de legisladores, armadores, empresas de navegação, sindicatos, produtores de aço e importadores, foi alertado que esta medida será um imposto que impacta a competitividade americana, com a possibilidade de aumento da inflação dado o aumento do custo dos fretes marítimos, sendo os importadores de produtos agrícolas e baratos os principais afetados. Também o gás liquefeito seria afetado, pois o número de navios com capacidade de transporte são reduzidos e chineses.

A indústria do aço, que já foi apontada por analistas como o lobby com mais influência nas políticas de Trump, assinalou que iria imediatamente aumentar a produção.

Acabar com o Backstop do Fed: o abandono do dolar

Dada a volatilidade das decisões do governo americano e desprezo por acordos de cavalheiros, tem havido discussões no sistema financeiro europeu sobre o que fazer se a Reserva Federal americana não cumprir com a sua função de fornecedor de dólares em alturas de stress nos mercados. Já em 2024 se tinha identificado esta questão como sendo de especial vulnerabilidade para os bancos comerciais europeus. Dada a história recente, teme-se também que o fornecimento de dólares seja usado como arma de negociação em troca de favores ou recursos.

A Reserva Federal americana: 

  • Como banco central dos EUA, mantém “swap lines”, linhas de troca de moeda, que garantem o fornecimento de dólares a quem deles necessita sob a forma de empréstimos. Um exemplo: se o Banco Central Europeu necessita de 1000 dólares, pede emprestado ao Fed e oferece como garantia euros no valor de 1000 dólares. Quando termina o empréstimo trocam moeda: o BCE devolve os dólares contra os euros que deu como garantia.

Porque que é que o Banco Central Europeu pode precisar de pedir dólares emprestados?

  • Tipicamente os bancos centrais necessitam de dólares para fornecer aos bancos comerciais do seu país/união.
  • Os bancos comerciais necessitam de dólares porque grande parte da atividade financeira mundial se faz em dólares: obrigações de dívida são emitidas em dólares, transações comerciais internacionais são feitas em dólares, e os próprios bancos investem em ativos denominados em dólares como ações, obrigações do tesouro americanas, etc.
  • No caso europeu em concreto, 23% do financiamento dos bancos da área do euro é denominado em moeda estrangeira, sendo o dólar norte-americano 17%. 
  • Em tempos “normais”, em geral os bancos comerciais obtêm dólares de duas formas: 
    • junto de fundos do mercado monetário americano sob a forma de empréstimos de muito curto prazo contra instrumentos monetários como obrigações do tesouro, papel comercial, depósitos bancários, etc. 
    • swaps de moeda como descritos acima com outras instituições
  • A natureza de curto prazo do financiamento em dólares americanos pode expor os bancos à falta de liquidez, uma vez que este financiamento geralmente não está disponível em momentos de maior volatilidade do mercado e, de um dia para o outro
    • os fundos monetários americanos poderão não ter capital suficiente se as condições econômicas são positivas pelo que os investidores americanos mudam o seu capital para outros fundos mais rentáveis; 
    • uma corrida a fundos pode descapitaliza-los; 
    • os fundos poderão querer diminuir a exposição a certos países em dificuldades financeiras.

Qual o interesse da Reserva Federal em fornecer dólares?

  • Se a reserva federal não fornece dólares, os países são obrigados a vender as obrigações do tesouro americanas que possuem. Esta venda massiva depreciaria os preços das obrigações, o que significa que os cupons das obrigações (os juros que pagam ao possuidor) aumentariam.
  • Se os juros das obrigações do tesouro aumentam, o custo de financiamento dos EUA aumenta, contribuindo para o deficite.
  • Portanto, controlar os custos de financiamento do país significa preservar a política monetária: a reserva federal, tal como outros bancos centrais estabelece a taxa de juro de referência como politica para alcançar os seus objetivos (em geral, controle da inflação)

Os riscos que uma decisão de não fornecer dólares traria…:

  • Mesmo sem acontecer, bastará haver dúvidas que esta situação aconteça para lançar o mundo num processo de desdolarização. Seria o abandono do dólar como mecanismo neutro de troca, pois passaria a ser considerado dependente da política. 
  • A acontecer… o Banco Central Europeu parece não ter ainda encontrado alternativa.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *