Trump arreganha as Taxas

Hoje é supostamente o dia da libertação! Libertação do jugo comercial a que os pobres Estados Unidos estão sujeitos, diz o Trump, que reitera que “andam a aproveitar-se de nós há muito tempo”. Nenhum economista consegue explicar o que isto quer dizer porque não quer dizer nada: mais um espernear de um tipo que devia estar sossegadinho em casa no sofá a gritar pra televisão em vez de lhe terem dado uma arma para as mãos para fuzilar o sistema económico mundial.

(Ver imagem acima: pelos vistos definir uma política tão importante é coisa tipo marrar para o exame do dia seguinte.)

Não sabemos que taxas alfandegárias serão, sobre que produtos, sobre que países, em que percentagem, ou quando serão implementadas. E isto tudo é um bocado indiferente a este ponto porque o mal está feito: o pior impacto de tudo isto é o CAOS.

O dólar era suposto ter valorizado frente ao Euro: quando os produtos europeus se tornam mais caros via taxas, as importações descem e a necessidade de trocar dólares por euros também. Mas mesmo com tudo isto, o dólar tem vindo a perder valor e deixou de ser um porto de abrigo em tempos de incerteza, aumentando os fluxos de fuga de capital para o Euro e outras divisas e para o ouro. 

O problema é que a incerteza causa uma redução nos planos de investimento das empresas, os consumidores tornam-se mais cautelosos e a recessão surge no horizonte. A Bloomberg Economics espera que apenas a incerteza diminua a produção industrial dos EUA em 1.1%.

Segundo este estudo [pdf] do Deutsche Bank, o Fed estima que as taxas alfandegárias tem um efeito depressor no PIB dos EUA:

Mas o que é a incerteza? Neste estudo [pdf] super interessante por Gavyn Davis da Fulcrum, encontramos esta definição:

Ou seja, se os resultados de uma medida económica são identificáveis e mensuráveis, o risco pode ser estimado probabilisticamente e medidas para o obviar podem ser implementadas (seguros, hedging, etc). Se os resultados são identificáveis mas não mensuráveis, temos incerteza, o que causa reduções de investimento e consumo como precaução dos atores económicos. A incerteza radical surge quando não sabemos identificar nem quantificar os resultados: um exemplo será um acontecimento inesperado como o foi a pandemia para a qual não haviam parâmetros ou experiências anteriores para definir medidas económicas.

Portanto, quando temos períodos de risco os mercados funcionam de forma eficiente porque temos dados com que trabalhar e os investidores podem tomar decisões fundamentadas para preservar capital. Em tempos de incerteza, temos uma quebra da confiança e se a situação se degradar poderá haver instabilidade financeira exigindo intervenção.

Para a Fulcrum, os mercados financeiros têm andado voláteis mas não há indicação de pânico ou expectativa de catástrofe: estamos num período de risco. Se a situação descambar para incerteza com redução de investimento e de consumo, poderá vir aí uma recessão. 

O impacto imediato das tarifas em si é difícil de prever mas não impossível: dependerá de uma série de outros fatores. Por exemplo, simplificando: 

  • o custo dos importadores americanos poderá ser passado ao consumidor (e estudos apontam que essa é a consequência mais habitual). Isto terá impacto na inflação dos EUA:
    • se os salários acompanharem a inflação, os consumidores continuarão a comprar e as importações não decrescem; se a inflação sobe, o banco central poderá aumentar as taxas de juro, diminuindo o crédito e a expansão das empresas americanas, contraindo a economia e reduzindo a inflação.
    • se os salários se mantiverem, provavelmente tanto o consumo de bens importados como locais decrescerá. Se houverem produtos locais similares, estes aumentarão de preço, porque se eu vendo a 100 mas o importador vende a 200… eu tenho margem para aumentar os meus preços. Mesmo assim, a inflação poderá diminuir se houver contração do consumo ou se a oferta de produtos locais alternativos aumentar.
  • Se os importadores assumirem os custos das taxas, diminuem os lucros, poderá levar a perda de empregos e a uma contração da economia. E diminui a inflação.
  • Se os países atingidos pelas taxas alfandegárias retaliarem, os exportadores americanos diminuem produção e rendimentos, deprimindo o sector, levando ao desemprego.

Ou seja, tudo isto poderá ser desinflacionário, mas a que custo? E estava o governador do Fed a conseguir diminuir a inflação sem meter os EUA numa recessão (o soft landing) e agora vê-se metido nesta alhada.

E se o objetivo é relançar a indústria de manufatura  nos EUA, criando empregos, a última guerra comercial que o Trump engendrou resultou no oposto:





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