
Quem diria? O tipo que se pôs a anunciar Teslas na Casa Branca e que disse “vou passar um cheque ao Elon para comprar um carro porque as transferências bancárias, isso de o dinheiro desaparecer de um lado e aparecer no outro, sabe-se lá como funciona”* não percebe nada de comércio internacional.
*estou a citar de memória mas foi mais ou menos isto
Eu quero-me focar no positivo porque no meio do caos há sempre oportunidades:
- A bolsa americana e o dólar a perderem valor: quando a coisa assentar poderá ser uma boa oportunidade para quem dispõe de liquidez para comprar empresas americanas sólidas se descerem a um preço razoável, simultaneamente rezando para que a onda de loucura passe.
- Marcha atrás: Provavelmente nos próximos dias o governo americano vai dar-se conta que, por exemplo, não produz chocolate e vai ter de fazer excepções em barda. Há também a possibilidade (remota) do Congresso, que legalmente dispõe de poderes para criar taxas alfandegárias, revogue as decisões de Trump que usou uma lei de emergência questionável para decretar as taxas.
- A União Europeia a retaliar com taxas: guerras comerciais não são grande ideia mas, ao contrário do governo americano, temos profissionais altamente qualificados a analisar como contra-atacar. É uma oportunidade para taxar serviços (onde a Europa tem um déficit comercial com os EUA ) que podemos substituir por serviços europeus.
- A União Europeia a retaliar com Políticas Fiscais e de Integração: isto tudo é uma boa desculpa para a UE abandonar a austeridade (a Alemanha já iniciou o processo), lançar obrigações de dívida conjunta, e finalmente criar o euro digital que nos livraria do jugo das Visas e Mastercards deste mundo, recuperando soberania nas infraestruturas de pagamento.
- As exportações europeias de luxo para os EUA: nós vendemos muito luxo (cerca de 10% das exportações europeias)… que são produtos com baixa elasticidade. Quem compra luxo não está muito ralado com aumento de preços e até poderá ser contra senso, mas quanto mais caro melhor: sinal social de riqueza. Pode ser que a coisa não seja tão má como isso.
- A perda de soft power dos EUA: as taxas que foram aplicadas ao mundo todo exceto a Rússia e Belarus (o que me leva a admitir que ajuda o caso dos tarados das teorias da conspiração) levam a perda de credibilidade dos EUA como aliado. Boa oportunidade para a Europa tomar o seu lugar, criando goodwill.
- A fuga do dólar e das obrigações do tesouro americanas: ao Macron já lhe cheirou o sangue e já falou com a Christine Lagarde sobre a possibilidade de o Euro tomar o lugar de divisa de reserva mundial. Isto seria excelente para a emissão de dívida europeia.
- Em geral, parece-me positivo para as bolsas europeias que absorverão o dólar em fuga e beneficiam das medidas acima… apesar de inicialmente se ter de diversificar e estabelecer relações comerciais com outros países para escoar os produtos que possivelmente já não encontrarão compradores nos EUA.
Mas ainda relativamente ao espectáculo de ontem: naquelas tabelas (ver imagem acima) que o Trump apresentou na Casa Branca, havia uma coluna com a % de taxas alfandegárias que cada país aplicava aos EUA. Alguém no Twitter (que o Elon insiste em chamar X) descobriu o que o número era um rácio calculado como saldo comercial sobre total de importações desse país para os EUA. O que explica porque é que Israel levou com 17% apesar de terem reduzido as suas taxas a 0%: o que o Trump quer é eliminar o déficit comercial com todos os países. Uma ideia tão abstrusa que o David Ricardo e o Adam Smith estão a dar voltas no caixão em desespero.
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